O último uivo na calada da noite
A hora da verdade se aproxima. Observo o cair da tarde atônito com a formação da noite. Aquele tapete negro se estendeu por sobre a minha cabeça. A mansão é sombria. Meu fraque fino cheirando a guardado, enobrece a minha postura. As velas acendem cada passo que dou no chão de madeira, que canta desafinado com o peso do meu obscuro. A poeira do ambiente preenche cada espaço das minhas narinas. Na sala de jantar a mesa estendia o brilho do verniz de ponta a ponta da sala. A primeira cadeira com estofado vermelho, representava a reunião dos vazios. Os corredores desta extensa mansão, acalentam a minha agonia de espaço silêncio. O grande relógio revestido com teias de aranhas, me atenta com o tic tac dos ponteiros de ouro, que prestes a se abraçarem com o doze desse grande círculo vicioso, influenciam severamente os meus olhos a abraçarem a grande bola de luz intensa que me incomoda muito. Na hora em que os ponteiros abraçam o doze, a luz da grande lua me abraça e um formigamento insistente resolve me invadir, o meu corpo se agita e se descontrola, os sentidos se perdem e as extremidades e cavidades se delatam deliberadamente. A minha musculatura se incha e se enrijece. As dores são maiores que os gritos. Me lanço nos móveis e nas paredes tentando sanar o estranho estado de transformação em que eu me encontrava. Minhas vestes foram substituídas por pelos negros e grossos. A boca se avantajou, os dentes se tornaram maiores e muito afiados, meus pés se deformaram assim como todo o resto. Por dentro um fogo me devorava, consumindo a minha bondade e serenidade.
O instinto animal me engolia. Com garras enormes me prendi à janela e vi a lua como um lar de sedução. Seduzido corri em direção a floresta em alta velocidade me ferindo nas trilhas da mata fechada. Minha força triplicou. Um anseio voraz por carne fresca, me levou a procura de um alimento vivo recheado de osso e sangue. Tive sobre mim a fome de três leões. Nesse passeio assustador, ingeri dois cervos, um felino e uma lebre. A minha fome não era pouca, minha visão era turva de tonalidade avermelhada, a audição aguçada, resgatava o som de um graveto seco, estalando a mais de dois quilômetros de distância em meio ao vento forte e todas as folhas que eram sopradas. Cheguei ao ponto mais alto da montanha, onde a lua é cheia por inteiro. Era eu ali, um ser desconhecido na toca dos lobos da colina. Eles notaram a minha presença e a matilha local em pontos estratégicos, emitiram sons que preenchiam todo o lugar. A lua e o coro dos lobos! Em mim surgiu o êxtase da soberania e então libertei o grito cantado. O grito fez calar a matilha local e toda a floresta. Assim foi dado o último Uivo na calada da noite!
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