"O GRITO"
Parado na rua a noite em frente a uma grande praça, entrei por ela, pois nela havia uma passagem para o outro lado do Bairro. Era o único atalho. Na primeira vez que passei por ali, tudo parecia calmo, somente algumas pessoas conversando, alguns moradores de rua, mas a praça era bonita e iluminada.
No segundo dia, eu estava parado no mesmo lugar da rua em frente a praça e atravessei por ali novamente. Algo mudou. Agora havia mais moradores de rua, pessoas estranhas, prostitutas e trilhas escuras, algumas das lâmpadas dos postes foram quebradas e outras ficavam acendendo e apagando.
Então, enquanto eu atravessava, vi uma mulher que caminhava a alguns passos a minha frente, observei a volta e vi marginais no escuro dizendo palavras de terror e preparados para darem o bote na mulher. Apertei o passo e caminhei junto dela, ela me agradeceu e me disse que aquele lugar era assombrado e muito perigoso, assim atravessamos à salvo. No terceiro dia, eu estava parado no mesmo lugar da rua em frente à praça e entrei novamente. A praça estava um verdadeiro antro de perdição, escuridão por todos os lados. Decidi pegar uma trilha diferente e acabei registrando coisas assustadoras. A trilha em que eu estava me levou a casas abandonadas, caindo aos pedaços e dentro das casas velhas e pela trilha e em todo lugar, muita orgia, sexo explícito, casais, homens com homens, mulheres com mulheres, adultos, crianças, mendigos, dependentes químicos. Era uma orgia generalizada e quanto mais eu caminhava para sair dali, mais absurdos eu via. Depois de passar por um grupo de mais ou menos 20 pessoas todas agrupadas umas por cima das outras, foi que consegui achar a saída. Nas três vezes que atravessei, o que mais me preocupava era o porque da degradação. No quarto dia, ali estava eu no mesmo lugar da rua em frente a praça. Desta vez algo mudou, não era noite. Era fim de tarde o céu estava nublado e assim atravessei novamente pela praça. Alguns passos a frente, logo vi uma mulher com uma criança no colo e me aproximando dela, ela me disse que todos estavam cortando caminho por aquele local da praça. Então, enquanto eu a seguia, a criançinha em seu colo me observava. O atalho era por dentro de uma cachoeira, enquanto descíamos as pedras eu vi muitas pessoas no lugar. Mulheres religiosas de coque e roupão expulsavam demônios das pessoas que estavam ali. Quando pus os meus pés na água, uma mulher que estava endemoniada me olhou de longe, me disse coisas horríveis e começou a dar gargalhada. De repente me virei para a criança no colo daquela mulher e a criança com uma voz demoníaca disse que ali seria o meu fim e começou a rir. Logo, todas aquelas pessoas estavam endemoniadas, até as mulheres religiosas e todos eles começaram a me cercar, eu não conseguia correr porque a água estava cobrindo meus joelhos e eles estavam por todos os lados, rindo e dizendo que ali seria o meu fim. Então comecei a lutar, comecei a agredi-los em minha defesa, mas eles eram muitos e tinham forças superiores as minhas. Eles me seguraram, eu não posso descrever o tamanho do meu desespero, até que um deles que era um traficante, veio em minha direção enquanto me seguravam e me deu um tiro na cabeça. Vi o meu corpo cair com a cabeça estourada e todos eles começaram a lamber o ferimento e começaram a devorar o meu corpo morto. De repente comecei a cair, fui sugado violentamente para as profundezas da terra e cai em um lugar horrível.
Tochas em chamas e goteiras decoravam o lugar. Eu estava numa espécie de jaula. As grades eram grossas e indestrutíveis. O calor era insuportável apesar da forte umidade. Os sons de terror eram ensurdecedores. Gritos, choro, desespero, gemidos, sei lá, eu estava confuso, não consigo definir bem.
Desolado e preocupado, fechei os olhos e comecei a pensar em Deus.
Se Deus realmente é todo poderoso, então ele certamente me tiraria daquela situação impossível de se reverter. Com os olhos fechados, elevei o meu pensamento e a minha sinceridade a algo infinitamente superior a mim e com uma forte concentração de sentimentos, eu comecei a gritar. Não era de medo. Era de força, de coragem, de fé. De repente uma forte luz dominou o lugar, comecei a girar os braços ligeiramente e os meus pés começaram a sair do chão. Eu ainda com os olhos fechados e gritando furiosamente, comecei a destruir tudo o que estava a minha volta. Jaula, rochas, demônios, medo, escuridão. O grito do sobrenatural.
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