A Fronteira
Mais um dia. Muita coisa mudou desde a última guerra.
   Gosto do ar puro e da vista deste lugar, mas nada consegue ofuscar as sangrentas lembranças e todas as mortes causadas por mim. 
Esta cabana. Esta montanha. Todas estas árvores e animais me servem de terapia. É a unica maneira de quebrar as recordações daquela mansão e das perseguições que me fizeram ser algo que eu jamais imaginava ser. 
   Até hoje, junto os cacos deixados pelos caminhos por onde passei. Toda vez que me olho no espelho d'água, sigo os sintomas das cicatrizes expressas na minha face obscura, estilhaçadas por garras inimigas. A cada piscar de olhos um flash de puro terror.
  Sinto falta da paz que me falta a milênios. Uma imortalidade insatisfatória contrária ao que muitos pensam. Meu reinado foi extinto quando afogado em culpa e remorso decidi fugir das lutas por território e me empenhei na luta pela sobrevivência da minha monstruosidade.
  Viver enclausurado e trancafiado no topo desta montanha faz com que eu me sinta seguro, pois não quero me aproximar novamente da natureza da Lua, a mesma Lua que por séculos extraiu do meu ser uma animalidade devastadora na sua cheia.
  Meus antepassados foram extintos após serem devorados por suas próprias monstruosidades, não quero ter o mesmo fim. Nesta época do ano, me acomodo na tranquilidade de ter a arte da caça como alimento. Pequenos animais auxiliam na minha sobrevivência me doando suas vidas.
  Aprendi a caçar como um caçador normal e nunca mais como um predador fatal em noites de Lua cheia.
  Me recordo entristecido de todas as noites de Lua cheia, ao longo dos séculos, em que eu caminhava pelos corredores das minhas mansões, sentindo ao rosto o calor das tochas, observando a mesa e todas as cadeiras na sala de jantar. Por vezes vestido com fraque, sobretudo ou couro de animais derrotados por mim. A grande janela ao fundo que me dava a vista de entrada para a grande Lua cheia e que me fazia outro em fração de segundos. 
  Lembro de cada detalhe. As dores insuportáveis, o medo, o vazio, a devastação generalizada de humor e dilatação dos membros.
  Meus instintos e agressividade me tornaram Alpha bem jovem. Liderei inúmeras aldeias e suas alcateias. O que eu não previa era que houvesse outros seres como eu e que isso me custaria grandes e longas batalhas.
  Preocupado com inimigos á altura, não atentei-me a fúria da população por conta das destruições e mortes de inocentes e seus bravos guerreiros que só tentavam defender seu espaço. 
  Fui perseguido e caçado por homens com ferramentas e armas de fogo. Tive minhas propriedades apedrejadas, saqueadas e incendiadas. Ainda posso ouvir os gritos de fúria daquela gente:
- Matem o monstro! Matem a fera! Incendeiem a floresta! Apareça monstro das trevas!
  Como posso não me ofender com tantos insultos, se sou um grande causador de dor a mim e aos outros?
  Mediante a todos esses acontecimentos, decidi atravessar a fronteira e me isolar de tudo.
  Quantos amores deixei para traz? 
  Hoje ainda existente na minha escuridão, mantenho o mundo a salvo do monstro que habita dentro de mim.         

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