O Príncipe do submundo
  Eram tempos difíceis. Por todos os lados se via pessoas de épocas distintas.
  Não era uma lenda, era uma realidade bem distante de tudo o que eu acreditava ser vivo. O lugar me lembrava as ruas da Lapa na sua antiguidade. Ouvia-se sons de explosões misturados a músicas de diferentes ritmos. 
Perdido na minha loucura visual, adentrei em um bar de esquina e lá encontrei alguns conhecidos, todos representantes da minha atual realidade. Sentados a mesa eles pediram salames, cerveja, refrigerante e amendoins.
  Concentrado e um tanto disperso daquela ilusão, eu tentava identificar o que havia de errado por trás daquele encontro e de todo o resto. Eu tinha certeza de que todas as pessoas habitantes do bairro e daquele bar não eram pessoas vivas e sim, seres que já se foram. O que eu não entendia era o por que de sermos os únicos seres reais e o por que de estarmos ali reunidos.
  Percebendo que havia algo de errado tentei alertar os meus conhecidos, mas eles estavam presos a uma hipnose continua, ninguém me ouvia. 
Repentinamente uma força descomunal paralisou a todos, eu já não tinha mais o controle do meu corpo, o mesmo acontecia com eles. Um dos garçons sorrindo recolheu o prato com amendoins da mesa dando a entender que havíamos sido envenenados pelo amendoim.
  Direcionando o meu olhar para o noticiário que passava na televisão do bar, ouvi a notícia de que o caos e a destruição dominavam o Mundo, inquieto e me sentindo responsável por todos os conhecidos paralisados a mesa, retirei forças do meu interior e caminhei lentamente até o atendente do bar e perguntei onde ficava o mictório. O homem do bar não parava de rir enquanto apontava o dedo indicador para o corredor ao lado. Com muita falta de ar e sentindo a minha coordenação prejudicada, entrei no banheiro e comecei a lavar o rosto na tentativa de minimizar os danos do envenenamento.
  Ao levantar o rosto frente ao espelho descascado, vi um reflexo de pessoas se movimentando atrás de mim, quando me virei, não havia mais ninguém. Ao sair do banheiro entrei em um outro corredor aos fundos do bar para ver se encontrava uma saída, mas o que encontrei la não era esperado.
  Um ser alto, forte e que tinha uma fisionomia totalmente desconhecida estava de pé, bem na minha frente e ao fundo um cenário de muita destruição, guerra, caos e terror. Eu fiquei por mais ou menos uns vinte minutos olhando e sentindo o calor insuportável daquela destruição. Ele olhou bem no fundo dos meus olhos, mas não disse uma só palavra. Era o príncipe do submundo.
  Sem esperar fui lançado na parede e de uma parede a outra por várias vezes, até cair ensanguentado e sem forças. Ele fez isso sem tocas as mãos em mim. De fato este ser não é deste mundo.
  Algo em mim despertou o entendimento e rapidamente entendi que aquele mundo em que eu estava não era o meu mundo e sim o dele. Comecei a travar uma grande luta com aquele ser e em infinita desvantagem comecei a ver o fim se aproximar, temendo que ao perder esta luta eu pudesse ficar aprisionado naquele mundo. Muita coisa se passou pela minha cabeça naquele momento. Lembrei de todas as outras situações de perigo que eu já havia enfrentado e isso me trouxe uma ideia. Se em todas as outras batalhas que venci eu precisei dar tudo o que eu tinha em mim, aqui não será diferente. Elevei os meus pensamentos ao criador de mim e pedi forças sobrenaturais para vencer mais um inimigo.
  Após este pedido, iniciei o mesmo processo de transformação usado em outras batalhas. Comecei a sentir a minha força multiplicar-se e indefinidamente disputei forças com o mal. Só me lembro que durante a dura batalha consegui quebrar o pescoço dele e que mesmo assim ele continuou a lutar.
  Muito furioso comecei a despedaça-lo com as minhas garras e com gritos mandei que ele voltasse para o lugar de onde saiu. E ele rindo sem parar me disse:
- Não pense que isso terminará aqui! Você não terá paz até que ele te destrua!
Assim, vi os pedaços dele se regenerarem e sumirem bem diante dos meus olhos. Em seguida tudo havia sumido com ele, as pessoas, as destruições e aquele bar. Muito ferido e exausto, voltei ao meu estado natural e recebi um abraço dos meus conhecidos que voltando a consciência insistiram em saber o que havia acontecido e então saímos juntos daquele lugar e fomos embora sem olhar para trás.

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