Século XVIII.
Tempo de muita destruição.
Camuflado no alto de uma árvore, estava eu, a espreita de meus inimigos.
Não sei que tipo de mostro me tornei, mas a ira que corria em minhas veias era letal.
Eles atearam fogo nas minhas terras. Abusaram de nossas mulheres e as queimaram vivas.
Assassinaram nossas crianças. Sacrificaram centenas de pessoas de bem. Degolaram meus pais bem diante dos meus olhos.
Dizimaram o meu povo. Amaldiçoados sejam estes vermes.
Algumas semanas depois, fui encontrado por um homem que passava pelo lugar destruído. Colocou-me em seu cavalo ainda desacordado e levou-me para suas terras ao Norte de Vandenon.
Em meio aos corpos carbonizados e esquartejados este homem ouviu um gemido e em sua procura, encontrou-me ferido por perfuração de espada no peito e no pescoço. Eu tinha apenas quatorze anos.
Levei meses até me recuperar. Todas as noites acordava assustado vendo as imagens daquele dia.
Lavínia, filha do homem que salvou minha vida, era quem acalmava os meus traumas com chás de ervas, pano molhado e muito carinho. Moça jovem, aparentava ter uns doze anos.
Os anos se passaram. Em gratidão á família que me acolhera, comecei a trabalhar na lavoura. Plantando, colhendo, cortando lenhas e caçando para alimentar-nos.
Em um determinado dia quando sai para caçar algo muito estranho aconteceu. Eu preparei a armadilha para qualquer presa que aparecesse, mas não tive êxito. Escureceu, o tempo nublou e começou a cair muita água do Céu. Eu não podia voltar sem o alimento.
De repente, ouvi um barulho nas moitas, era um Urso. Apesar de um grande medo, mantive a calma e fiquei escondido. O grande Urso farejou o meu cheiro e veio depressa em minha direção. Naquele momento, algo dentro de mim encorajou-me a enfrentá-lo. Fui de encontro a ele e comecei a gritar na tentativa de espantá-lo, Contudo, ele apoiou-se nas patas traseiras e ficou bem de pé diante de mim mostrando ser o dono do lugar.
Em mim ouve uma transformação repentina. Me veio as imagens fortes de tudo o que aconteceu, pulei no peito do Urso e travamos uma batalha mortal. Rolamos pela floresta molhada e quando fiquei por cima dele, dentes afiados cresceram em minha boca e eu os cravei em seu pescoço peludo sugando-lhe todo o sangue de seu corpo.
Retornando para casa, ao entrar pela porta, joguei o corpo do Urso no chão e cai de joelhos. Não me sentia bem. Lavínia veio depressa em minha direção, jogou sobre mim uma toalha e com um olhar muito assustado limpou o sangue da minha boca.
Seu Pai preocupado perguntou-me o que havia acontecido, mas um breve desmaio interrompeu a minha resposta.
Naquela mesma noite tive tantos pesadelos que mal podia descrevê-los. Meu corpo sofria uma transformação absurda.
No dia seguinte, juntei minhas coisas e decidi seguir meu caminho, pois sabia que tinha algo a resolver. Eu precisava de respostas. Tinha que preservar a família que me acolheu.
Lavínia muito triste, perguntou se algum dia eu retornaria e abraçou-me bem forte. Seu Pai segurou-a por um instante, abençoou-me, cedeu-me um de seus melhores cavalos e deixou-me partir.
Caminhei por semanas até encontrar o lugar onde nasci. Só havia ruínas.
Em meio aos destroços da Cidade abandonada, procurei o abrigo em que o meu Pai costumava levar-me quando garoto, e lá, encontrei um Baú. Nele continha uma armadura, dois punhais e sua espada forjada em Aço puro.
Coloquei a armadura, embainhei os punhais, segurei a espada bem firme em minhas mãos, e fixei o olhar naqueles que pagariam com a vida por suas atrocidades. Montei no cavalo, e sai em alta velocidade para a Província de Leonardo Quinto.
Aos arredores do Castelo, desci do cavalo, dei-lhe um tapa e deixei-o partir. Ali começava a minha Guerra.
Subi em uma árvore para vigiar meus inimigos. Não sabia ao certo quando teria a oportunidade de atacá-los fora das muralhas. Por sorte, um grupo de patrulheiros retornava para o Castelo com seus cavalos e carruagens. Eram aproximadamente uns cem homens armados com suas espadas e escudos. De repente, vi entre eles três rostos muito familiar. Eram três dos homens que participaram da grande chacina. Eles mataram meus pais.
Saltei das árvores sobre o comboio e comecei a despedaça-los sem piedade. Noventa e nove homens não foram suficientes pra mim, eu tinha sede de vingança. Tomei um deles como refém e o fiz colocar-me para dentro do Castelo sem sermos vistos. Ele levou-me por uma passagem secreta que somente homens de confiança tinham conhecimento. Ao adentrar no Castelo, devorei-o vivo e continuei com o plano. Faltava muito pouco para que eu vingasse meu povo.
Caminhei por tuneis escuros e fétidos em formato de labirinto até encontrar uma porta que me levaria ao salão principal do Castelo. Rei Leonardo Quinto, o mandante do massacre, celebrava uma festa em comemoração ao noivado de sua única filha, Ruth. Todos os Comandantes e Generais de Províncias estavam presentes. Homens muito poderosos perto de seu fim.
Naquele momento eu tentava classificar meus inimigos pelas mãos sujas com os sangues do meu povo, mas seria muito difícil seleciona-los em meio a tantas pessoas.
Não pude esperar mais. Invadi o salão durante a cerimônia. Soldados aproximaram-se e apontaram suas espadas em minha direção, eu não me movi. O Rei Leonardo, levantou uma de suas mãos. A música parou, todos os soldados em atenção e todos os olhos voltados para mim.
O Rei logo apressou-se em perguntar, quem eu era e o que eu desejava. Gostei disso, foi direto ao ponto. Então em voz alta e com fúria nos olhos, revelei para toda aquela gente o que havia feito o tal Rei a quem todos bajulavam. Ao término de minhas palavras o Rei temeroso, deu ordem a seus soldados para prender-me. Assim, transformando-me, comecei uma matança sem fim.
O portão do Castelo se abriu e eu sai banhado de sangue e um tanto ferido. A cada passo, meus ferimentos curavam-se rapidamente.
Do lado de fora do Castelo, o Cavalo que eu havia dispensado, estava a me aguardar solicito.
Peguei a estrada sem olhar para trás. Aquele que chamavam de Rei e todos seus súditos pereceram á lâmina da espada de meu Pai, e ás presas afiadas da minha boca.
Após longos dias, retornei para as terras da minha nova família, e lá, encontrei o conforto e a paz no abraço feliz que Lavínia e seu Pai deram-me na porta da casa.
Anos seguintes, Lavínia e eu nos casamos. Seu Pai falecera de velhice. Partimos para as montanhas e constituímos uma linda família.
Eu Monstro, vingador do meu povo.
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